
Hoje é o primeiro aniversário da posse de Trump. Republicamos, nesta ocasião, o artigo que nosso camarada Sungur Savran escreveu imediatamente antes da posse. Relê-lo será instrutivo para constatar como uma série de previsões feitas com base no método marxista se saiu diante dos acontecimentos do mundo real.
NOS ESTADOS UNIDOS, A POSSE de um presidente recém-eleito, que ocorre a cada quatro anos, em 20 de janeiro, depois da eleição de novembro, é um evento significativo, mas dignitários estrangeiros em geral não são convidados. Donald Trump quebrou essa tradição ao convidar autoridades estatais estrangeiras e outros para a cerimônia de posse. Em artigo anterior, explicamos por que é infundada a noção de que a abordagem política de Trump
— resumida no slogan “MAGA”, “Make America Great Again” — é isolacionista. Aqui, fica outra vez evidente: Trump não é isolacionista. Ele é um fascista!
Antes de dizer “Que absurdo! Por que alguém que convida estrangeiros deveria ser caracterizado como fascista?”, observe mais de perto quem Trump convidou. Representando o quintal dos Estados Unidos, a América Latina, estará o “el loco” da Argentina, Javier Milei. Ele se autodenomina um anarcocapitalista, mas, na realidade, é um fascista neoliberal. Trump provavelmente se inspirou nesse louco para criar o DOGE, Department of Government Efficiency. Liderado por dois bilionários, Elon Musk e Vivek Ramaswamy, o DOGE estará encarregado de fazer cortes massivos nas despesas do Estado. Afinal, Milei havia prometido desmantelar ministérios como se estivesse rasgando um pedaço de papel — e agora ele deixou seu povo morrendo de fome. Uma série de outros líderes vulgares de direita da América Latina também foram convidados, o mais notável deles é o ex-presidente protofascista do Brasil, Jair Bolsonaro. Assim como Trump, Bolsonaro incitou seus apoiadores a invadir o palácio presidencial, o Parlamento e a Suprema Corte — os centros dos três principais poderes do governo brasileiro — após perder sua candidatura para um segundo mandato. Bolsonaro ansiava por comparecer à posse, com seu coração batendo com o fervor da camaradagem fascista, mas, devido a essa tentativa de golpe, ele está impedido de deixar o país.
Vamos para a Europa Ocidental, o principal aliado dos Estados Unidos dentro da profunda irmandade imperialista da OTAN, estabelecida depois da Segunda Guerra Mundial. A convidada de honra é a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni. Ela é a líder do partido Fratelli d’Italia, ou Irmãos da Itália, sucessora do partido de Benito Mussolini — o ditador do Entreguerras que deu ao fascismo seu nome duradouro. Ela representará os países da União Europeia! Isso não é suficiente? Vamos incluir um representante do fascismo do Leste Europeu. Viktor Orbán, o primeiro-ministro da Hungria, a quem Trump recentemente elogiou como sendo o “primeiro-ministro da Turquia”, também estará lá. Ainda não é o suficiente? Do Reino Unido, o convidado não é um funcionário do Estado, mas Nigel Farage, o comandante triunfante do Brexit e o líder brilhante do partido protofascista mais forte da Grã-Bretanha. Se isso ainda não for suficiente, a França também será representada pelas estrelas de sua segunda facção fascista mais proeminente: Éric Zemmour e Marion Maréchal, sobrinha de Marine Le Pen, a principal figura da extrema direita da França. Zemmour e Maréchal uniram forças no movimento Reconquête, ou Reconquista. Os protofascistas da Península Ibérica também serão representados: líderes do partido Vox, da Espanha, e do Chega, de Portugal, estão prontos para comparecer. Aqui estão os representantes de sua querida civilização europeia! Comemore — eles são dignos de sua admiração!
E a Ásia, alguém pode perguntar? Claro, a Ásia não estará ausente. O principal líder do protofascismo asiático — e sem dúvida do fascismo propriamente dito —, Narendra Modi, também comparecerá à cerimônia de inauguração.
O vizinho Canadá não foi convidado uma vez que é considerado já estar na bolsa como sendo o 51º estado da União.
Aqueles que não reconhecem o fascismo
O STATUS DISTINTO DE TRUMP como um (proto)fascista e sua estratégia para fomentar o desenvolvimento dessa ideologia em escala internacional ficam bastante claros com essa última manobra. Como muitos de nossos leitores sabem, escrevemos, desde a eleição de Trump em 2015, que ele representa uma forma de fascismo imprevisível [loose-cannon fascism]. Embora ele tenha características únicas, enfatizamos de modo consistente que ele ganhou destaque como um membro dessa família protofascista internacional. Para aqueles que podem não estar familiarizados, vamos revisitar alguns pontos-chave.
Ao contrário de quase todos os partidos políticos e intelectuais da esquerda anglo-saxônica — com exceção de algumas figuras raras —, identificamos Trump como parte dessa família protofascista desde o início. Com base nisso, previmos com precisão, em 2015, que ele venceria a eleição contra Hillary Clinton — enquanto o consenso da moda era o de que ele não seria capaz de vencer. Após a vitória dele nas eleições presidenciais de 2015, apresentamos forte oposição ao consolo ingênuo de que ele seria um excêntrico, de que, com o tempo, ele se normalizará; destacando, em vez disso, que Trump se envolveria cada vez mais em práticas abertamente fascistas.
Mesmo quando Trump descreveu uma multidão de racistas — incluindo vários fascistas, membros da Ku Klux Klan e do Partido Nazista Estadunidense — como “boas pessoas”, muitos não despertaram de sua ingenuidade. Durante a revolta nacional desencadeada pelo assassinato deliberado de George Floyd pela polícia — sem dúvida o maior movimento de massas na história dos Estados Unidos —, Trump mobilizou a Guarda Nacional contra a população e encenou uma visita à igreja para dramatizar sua posição. Isso ainda não abriu os olhos de ninguém. Ironicamente, os mesmos grupos agora temem a possibilidade de Trump invocar o Insurrection Act — uma lei do século XIX que permite que os militares reprimam revoltas domésticas —, mas não levantaram um dedo para evitar tal perspectiva! Em todas essas questões, fornecemos evidências concretas para apoiar nossa identificação do protofascismo de Trump.
Ao longo do primeiro mandato de Trump, intelectuais não apenas de países anglo- saxônicos, como os Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Austrália, mas também da Europa continental — e, claro, os intelectuais de poltrona da Turquia, ecoando esses centros, sobretudo os liberais de esquerda —, persistiram em descrever as ações de Trump como mero populismo.
No entanto, depois que Trump perdeu a eleição para Biden e lançou uma campanha de negação, culminando no motim do Capitólio em 5 de janeiro de 2021 — a invasão do Congresso —, esses mesmos grupos de repente se juntaram ao coro burguês, gritando “fascismo!”. Da noite para o dia, eles se afastaram do refrão do populismo. Na Turquia, a Birikim [Acumulação], principal revista porta-voz do liberalismo de esquerda, que até então repetia a narrativa do populismo, publicou uma edição dupla especial sobre o fascismo em sua primeira edição depois dos eventos de 5 de janeiro (edições 382/383, de fevereiro/março de 2021). Reviravoltas semelhantes ocorreram entre intelectuais nos Estados Unidos e outros países imperialistas.
Não se deve presumir, entretanto, que essa negação do fascismo se limitava aos liberais de esquerda ou à esquerda pós-leninista. Também era generalizada entre aqueles que ainda subscrevem uma marca revolucionária do marxismo. Por exemplo, essa negação era evidente entre os intelectuais do maior partido socialista do Reino Unido, o SWP, o Socialist Workers Party, e entre os trotskistas italianos. Em 2018, durante uma conferência internacional em Buenos Aires, organizada pelo partido revolucionário argentino Partido Obrero — então parte do mesmo movimento internacional que nosso próprio partido —, seus principais porta-vozes rejeitaram pomposamente uma resolução que propusemos sobre a ascensão do movimento protofascista na Europa, em outros países imperialistas e em algumas outras regiões. Em outras palavras, esse erro de julgamento foi quase universal.
Como o DİP, o Devrimci İşçi Partisi, ou Partido Revolucionário dos Trabalhadores, tendo identificado a natureza protofascista de Trump nos últimos quatro anos, fomos capazes de prever o potencial de acessos de raiva pós-eleitorais se transformarem em explosões violentas. Nossa literatura partidária, tanto em turco quanto em inglês, está repleta de tais avisos. Conforme o 5 de janeiro se aproximava, expressamos explicitamente nossas preocupações. Este é o poder da ciência marxista! E, no final, o inevitável aconteceu.
Alguns leitores podem perguntar: “O que isso importa?”. A humanidade, em todas as suas ações, depende de previsões sobre o futuro próximo ou distante. Quando você atravessa a rua em um sinal vermelho, está fazendo uma previsão de que nenhum carro o atingirá. Se sua previsão estiver errada, você será esmagado. Da mesma forma, um erro de cálculo a respeito do Seis de Janeiro poderia ter resultado em consequências devastadoras para a classe trabalhadora estadunidense e a esquerda. O fato de não ter ocorrido é atribuível à falta de organização adequada do lado oposto. No entanto, a esquerda dos Estados Unidos, que não conseguiu entender a situação de forma alguma, não se preocupou em avaliaros pontos fortes e fracos do MAGA de Trump e, portanto, ficou indefesa. Nenhuma precaução foi tomada. O que salvou a esquerda e o povo estadunidense de uma escalada fascista significativa foi a sorte — ou melhor, as fraquezas do MAGA.
Portanto, análise e identificação corretas são vitais para a política revolucionária da classe trabalhadora. Aqueles que falham em analisar corretamente também falharão em tomar as precauções necessárias.
Barbárie, muito mais forte desta vez
ENQUANTO TRUMP SE PREPARA PARA retornar à Casa Branca para um segundo mandato, os Estados Unidos, o MAGA e o próprio Trump exibem características muito diferentes em comparação com o seu primeiro mandato. O mundo também mudou. Sem a consciência dessas diferenças, a classe trabalhadora dos Estados Unidos e a esquerda ficarão desamparadas diante de um desastre histórico. Vamos revisar rapidamente as principais diferenças entre os dois períodos.
Vamos nos concentrar apenas nos fatores mais críticos. Primeiro, a base política de Trump, o Partido Republicano, agora domina os três poderes do governo. Quando Trump assumiu o cargo em 2017, o Poder Legislativo, o Congresso, não estava sob controle republicano. Da mesma forma, a Suprema Corte, muitas vezes o poder de decisão sob certas condições nos Estados Unidos, parecia dividida entre os dois campos. Agora, no entanto, os republicanos detêm maiorias em ambas as câmaras do Congresso — o Senado e a Câmara dos Representantes —, deixando os democratas em minoria. Na Suprema Corte, graças às nomeações de Trump durante seu primeiro mandato, o número de juízes alinhados a ele aumentou para seis, com a oposição detendo só três votos. Uma maioria de seis a três é significativa — para que o tribunal decida contra Trump, dois juízes de seu campo precisariam romper as fileiras. Isso dá a Trump a capacidade de implementar políticas com facilidade, não apenas por meio de ordens executivas, mas também promulgando leis e garantindo o endosso da Suprema Corte para essa legislação e sua prática. Essa realidade objetiva faz com que uma segunda presidência de Trump seja muito mais forte do que a primeira.
Além disso, o Partido Democrata provavelmente enfrentará uma crise interna para se recuperar de suas feridas. Na tradição estadunidense, os partidos não costumam ser centrados em líderes individuais. Contudo, discussões e debates sobre potenciais candidatos democratas começarão rapidamente. Manter uma figura idosa e decadente no comando do campo de batalha político até poucos meses antes de uma eleição foi um erro político sem precedentes. Mesmo quando Biden assumiu o cargo pela primeira vez, havia sinais de declínio relacionado à idade. Muitas vezes comentamos com nossos camaradas que a escolha de Kamala Harris como vice-presidente foi um erro significativo. Harris, além de sua carreira como promotora, teve envolvimento mínimo com a política ou com a máquina do partido. Ela não era alguém que havia conquistado a confiança do público estadunidense por meio de anos de serviço, como o de uma senadora. Em todos os aspectos, ela era uma estranha. Como vice-presidente, ela teve um desempenho nada notável. Se Biden tivesse falecido no meio do mandato, a ascensão de Harris teria dado a Trump uma vantagem significativa. Embora esse cenário não tenha ocorrido, Harris finalmente demonstrou suas fraquezas quando as eleições chegaram. Apesar de ter sido anunciada prematuramente como candidata antes da convenção do partido, a nomeação de Harris foi acompanhada por um aumento sem precedentes nas doações, criando uma falsa impressão de igualdade antes da eleição. Essa fachada, no entanto, desmoronou em 5 de novembro, quando Trump venceu de modo decisivo. O Partido Democrata agora enfrenta um acerto de contas difícil, concentrando-se principalmente em questões internas, pelo menos nos dois primeiros anos, até as eleições de meio de mandato, em 2025. Com isso, os madrugadores ganham ainda mais terreno.
A segunda grande diferença está nas atitudes cambiantes da população dos Estados Unidos em relação aos democratas. O abandono do Partido Democrata não se deve só à entrega do país a um presidente em declínio cognitivo. O Partido Democrata é cada vez mais percebido como um partido de Wall Street. Uma parcela crescente da classe trabalhadora, em particular entre as comunidades de imigrantes latinos e de jovens negros, se voltou para Trump nessa eleição, apesar de seu racismo aberto.
Essa mudança não se limita à classe trabalhadora. Dentro da burguesia, uma vitória esmagadora também ocorreu. Em 2015, e durante seu primeiro mandato, Trump teve apoio de setores mais tradicionais do capital, como aqueles que se beneficiam de políticas protecionistas — do aço, por exemplo — e da desregulamentação ecológica — do petróleo e gás natural, por exemplo. Porém, nos últimos quatro anos, a competição com a China se intensificou, atraindo setores tecnologicamente avançados e globalmente ativos para o campo de Trump. Para simplificar: o Vale do Silício, que antes se alinhava com os interesses globalistas, agora está apoiando amplamente Trump. Elon Musk é o exemplo mais proeminente, embora outros, como Mark Zuckerberg, CEO da Meta, e o fundador e atual consultor de tecnologiada Microsoft, Bill Gates, também estejam se movendo em direção ao campo de Trump. Jeff Bezos, antes um liberal globalista, gradualmente mudou a linha editorial do The Washington Post em direção ao trumpismo. Com esses magnatas ao seu lado, Trump está a caminho de se tornar o representante da maioria do capital estadunidense. Até mesmo o CEO da OpenAI, Sam Altman, defendeu recentemente o apoio estatal para conter os avanços da China em inteligência artificial, sinalizando uma mudança em direção a políticas nacionalistas dentro do setor de tecnologia.
Terceiro, as políticas de Trump durante seu primeiro mandato foram, em muitos casos, adotadas e até mesmo intensificadas pelo governo Biden. As tarifas impostas por Trump não apenas à China, mas também a aliados, como México, Canadá e países europeus, foram amplamente mantidas. Além disso, Biden introduziu incentivos significativos para repatriar a produção de bens estrategicamente vitais, como microchips. Na política de imigração, as duras medidas de Trump foram suavizadas, mas, depois, se tornaram ainda mais rigorosas sob Biden. Esses desenvolvimentos equivalem a uma mudança tectônica e indicam que a ala globalista da burguesia adotou de modo parcial as políticas da ala nacionalista-fascista, uma realidade que objetivamente fortalece Trump.
Quarto, a natureza do movimento MAGA evoluiu. A princípio, Trump não comandava um partido disciplinado ou uma força paramilitar, ambos essenciais para um líder fascista. No entanto, ao longo dos anos, Trump transformou o Partido Republicano em um aparato do MAGA. Embora ainda não seja um partido fascista bem-ordenado, houve progresso. Da mesma forma, embora o MAGA não tenha uma estrutura paramilitar, ele lançou as bases para desenvolvimentos futuros.
Por fim, Trump, antes um novato político, está muito mais experiente. Tem agora ao seu redor uma equipe movida pela ganância e raiva, reforçando o ego inflado e as ambições imprudentes de Trump. Já propenso à impulsividade, Trump agirá rápida e agressivamente, em especial devido à sua idade avançada. Acreditamos que Trump pode almejar um terceiro mandato, apesar da reação negativa que isso geraria. Mas quaisquer que sejam as perspectivas para um terceiro mandato, seu senso de urgência o impulsionará para ações rápidas e decisivas.
Perspectivas e contradições
JÁ DISCUTIMOS EM DETALHES QUE tipo de barbárie o fascismo acarreta. Por outro lado, é prematuro especular — seja por meio de cenários alternativos, ou não — sobre a estratégia precisa de Trump, suas áreas priorizadas e as medidas e movimentos que ele adotará antes que o MAGA articule completamente suas prioridades táticas e estratégicas. No entanto, no curto prazo, alguns movimentos críticos podem ser resumidos da seguinte forma:
☞ Fortalecer imediatamente as proteções tarifárias contra a China e, de modo gradual, contra os aliados dela;
☞ Iniciar a implementação da política de deportação em massa de imigrantes e requerentes de asilo;
☞ Sob a liderança da dupla Musk e Ramaswamy, cortes significativos em programas de serviço social;
☞ Levantar temas polêmicos, como o canal do Panamá e a invasão da Groenlândia e do Canadá;
☞ Impor restrições aos grupos gays e trans;
☞ Processar funcionários públicos por supostamente usarem sua autoridade para servir aos interesses do Partido Democrata e buscar vingança contra figuras influentes anti-Trump, liberais ou globalistas;
☞ Introduzir novas taxas de impostos baixas e isenções para os ricos, junto com limites máximos;
☞ Reduzir medidas ecológicas e empreender projetos que aumentem as emissões de carbono.
Não podemos chegar a conclusões substantivas sobre a trajetória mais ampla dos desenvolvimentos sem entender a posição de Trump sobre as principais questões envoltas em incertezas, como a Guerra da Ucrânia, o genocídio em Gaza e as tensões com a China. No mínimo, até que algumas pistas surjam, será impossível prever a forma geral dos eventos. No entanto, parece certo que, tanto nacional quanto internacionalmente, uma série de medidas sanguinárias serão tomadas pelo governo Trump.
Algumas dessas etapas produzirão contradições significativas. Por exemplo, os cortes nos serviços sociais liderados pela entidade Musk-Ramaswamy, o DOGE, os quais podem desencadear lutas substanciais, potencialmente colocando o movimento trabalhista em oposição direta a Trump. Isso pode levar o presidente a tentar remodelar o movimento trabalhista ou sua liderança. Da mesma forma, a iniciativa de deportação em massa resultaria em graves violações dos direitos humanos. Por exemplo, durante o primeiro mandato de Trump, a separação forçada de pais e filhos pequenos, com as crianças mantidas em instalações segregadas, levou a consequências devastadoras para essas crianças. (Biden continuou essa política por algum tempo também.) Essas medidas podem provocar sérias reações de segmentos da sociedade que defendem com fervor os direitos de imigrantes e de refugiados. No cenário internacional, essas contradições podem ser agravadas pela atitude abrasiva que Trump frequentemente adota nas relações com outros países.
É preciso enfatizar: de agora em diante, as características definidoras da sociedade americana incluirão dureza, tensão, polarização, caças às bruxas, violações de direitos humanos, pobreza crescente e conflitos em massa em instituições vulneráveis, como prisões, escolas e bairros empobrecidos. Calma, civilidade e moderação na vida cotidiana recuarão para segundo plano. Esses desenvolvimentos podem levar a confrontos de rua.
Um ponto crítico a ser monitorado é a tendência do MAGA à formação de gangues armadas. Outra questão urgente é como o comando superior militar responderá se o exército for mobilizado contra a população. Durante o primeiro mandato de Trump, Michael Mullen, comandante do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas entre 2007 e 2011, manifestou-se publicamente contra o presidente.
Política revolucionária
ARGUMENTAMOS QUE A IDENTIFICAÇÃO e o diagnóstico precoces permitem medidas políticas oportunas, táticas e estratégias alinhadas com os interesses da classe trabalhadora e dos oprimidos. O DİP tem sido claro sobre a política que deve ser seguida porque identificou a ascensão global do protofascismo como um perigo já no ponto de virada de 2015-5. No entanto, a esquerda liberal, a esquerda pós-leninista e até mesmo aquelas tendências revolucionárias que são influenciadas por estas continuam a debater se esses movimentos são populismo, extrema-direita, pós-fascismo ou outra coisa, falhando em reconhecer o (proto)fascismo quando o veem.
Nossa abordagem à linha de luta é inequívoca. Claro, algumas questões variam de país para país. Mas uma luta eficaz contra o fascismo exigirá a seguinte orientação:
☞ Construir uma esquerda socialista que lute dentro das classes trabalhadoras e pelas classes trabalhadoras, substituindo partidos socialistas ou social-democratas atolados em políticas de identidade e dominados pela pequena burguesia moderna e seus aliados proletários ou semiproletários educados;
☞ Retornar ao marxismo para garantir que essa construção seja possível e bem-sucedida;
☞ Defender os interesses de outros grupos trabalhadores ou oprimidos e unir as massas exploradas e oprimidas em uma aliança em torno da classe trabalhadora para derrotar o fascismo;
☞ Conectar todas as organizações da classe trabalhadora — incluindo as reformistas ou economicistas, desde que sejam da classe trabalhadora — em uma frente única dos trabalhadores contra o fascismo;
☞ Marchar em separado, mas atacar juntos nessa frente, sem permitir que as bandeiras se misturem;
☞ Organizar a autodefesa, envolver de modo ativo a classe trabalhadora e os jovens em áreas aterrorizadas por fascistas e ensinar aos participantes técnicas de autodefesa e uso de armas;
☞ Evitar alianças, mesmo em táticas de frente única, com partidos que se disfarçam de esquerda, mas que servem aos interesses da pequena burguesia moderna e abastada e seus aliados, como o Partido Socialista francês;
☞ Para os Estados Unidos, aplicar táticas independentes do Partido Democrata e criar uma alternativa a ele;
☞ Trabalhar pacientemente para estabelecer uma aliança entre as classes trabalhadoras da nação dominante e os grupos oprimidos, apesar dos preconceitos profundamente arraigados na primeira;
☞ Opor-se à ideia da frente popular, que implica combater o fascismo à sombra da burguesia e em aliança com ela;
☞ Reconhecer que a luta contra o fascismo, em um determinado estágio, pode criar oportunidades revolucionárias por meio da ascensão das lutas de classes, e evitar estágios impostos artificialmente antes disso.
Voltando aos Estados Unidos, notamos que o Partido Democrata deve enfrentar uma crise de ajuste de contas e recuperação no próximo período. Nesse contexto, os socialistas devem expor as fraquezas desse partido, que atrai as massas para um vórtice, e trabalhar para estabelecer um partido que, no mínimo, tenha o caráter de uma frente ou, idealmente, que reúna tendências diversas sob um programa baseado na luta contra o fascismo.
Os Estados Unidos estão entrando em um período tumultuado. Como a principal potência econômica e militar do mundo, eles sem dúvida arrastarão o mundo para o abismo. Devemos nos preparar para lutar contra a barbárie.
